sábado, 19 de julho de 2008

Ruas de papel jornal

Estou há pouco mais de um ano na cobertura de Cidades (o que a maioria dos jornais chama de Geral), mas só agora percebo que as ruas da cidade ficam impressas na minha memória não pelo seu nome, mas como a rua onde um garoto de 15 anos morreu na direção do carro que pegou escondido da mãe, a estrada onde mãe e filho morreram depois de colidir o veículo em que viajavam contra um caminhão, a rua onde o homem viciado em drogas tombou ao tentar entrar na casa da ex-mulher, a rua onde furtam hidrômetros, a rua onde mora a rainha da Festa da Uva.

domingo, 13 de julho de 2008

Céu

Tardes modorrentas de domingo. Eu queria que fosse verão para sempre. Os dias cinzas tornam a vida nublada e mais difícil de suportar. É melhor quando o calor é tão forte que é quase possível estender a mão no ar e tocá-lo.
Por que as pessoas somem do teu caminho? Quem eu encontrei por acaso numa noite dessas escolheu outra estrada em uma bifurcação qualquer, seguiu uma via paralela, e eu me perdi. Não sei qual o caminho certo (acho q nunca soube qual era e não sei se um dia saberei). Mas as tardes quentes tornam mais fácil suportar.

The book is on the table

Eu moro na Capital Brasileira da Cultura.
Sou sócia da Biblioteca Pública. Espaço, aliás, que deve ter menos livros do que a biblioteca de Bento Gonçalves, cidade quatro vezes menor. Espaço socado num prédio feio, com nomes riscados nas paredes da escadaria interna. Onde ainda batem à máquina de escrever tua ficha e anotam a retirada do livro em um papel colado à parte interna da contracapa.
Eu moro na Capital Brasileira da Cultura.

Viagem e confusão mental

Pequenos milagres operam diariamente diante dos teus olhos. Pílulas de paciência. A vida que passa meio morta pela janela, junto com uma brisa gelada, pisando um chão úmido. A neblina que nunca se esvai. Uma criança com um capuz num dia azul sendo conduzida pela mão do pai por uma rua que não sei onde vai dar.
O outdoor mostra a estrela da estação passada com uma roupa da mais recente coleção. No ônibus, os passageiros parecem carregar a poeira eterna das viagens por estradas de chão. O veículo chacoalha os miolos e a alma, mesmo no asfalto recente. A pele dura e amarela acostumada ao caminho percorrido várias vezes ao dia. A estrada passa como uma projeção. A cruz marca o local onde alguém que eu não conheci morreu. Nuvens de outono num céu de primavera.