A gente está tão desacreditado das boas intenções da raça humana que quando acontece um gesto solidário nos espantamos, quando o correto deveria ser o contrário.
Na sexta, aproveitando os ares de verão em pleno inverno, fui dar uma volta pelo Centro quando saí do trabalho.
Na esquina de cima da minha casa, parei no sinal fechado para os pedestres. Do nada, meu nariz começou a sangrar muito (não se espante isso acontece de vez em qdo, embora fosse mais frequente qdo era criança). Eu estava com várias sacolas. Logo minhas mãos ficaram completamente sujas de sangue. Eu não queria manchar minhas roupas nem a minha bolsa, mas meu pacote de lenços descartáveis estava no fundo da minha bolsa e eu não estava conseguindo pegar. Além de mim, tinham umas seis ou sete pessoas esperando para atravessar a rua.
Um casal se interessou em me acudir. O rapaz foi o primeiro: “Moça, você está bem? Precisa de ajuda?”. “Estou. Isso acontece sempre. Só não tô conseguindo alcançar o lenço na minha bolsa.” A moça se ofereceu para pegá-los. Vi que ela ficou meio constrangida por ter que enfiar a mão na minha bolsa, mas eu a encorajei: “Pode colocar a mão. Deve estar lá no fundo.” Ela ficou com a minha bolsa (se quisesse poderia ter saído correndo com meu dinheiro, meus documentos, meu telefone, minha chave de casa, minha vida toda ali, mas eu senti q ela não faria isso). Ela me alcançou três lenços e eu me limpei.
O moço ainda se preocupou em querer me levar à farmácia, em me ajudar a encontrar água para me lavar. Mas eu respondi: “Não precisa, eu moro na outra esquina”. O sinal abriu. Eu agradeci e atravessei. Eles foram em outra direção.
Sou muito grata a eles. Duvido que os dois leiam isso, mas se lerem, moça loira e rapaz que estavam na esquina da Feijó com a Pinheiro na última sexta, muito obrigada. Vocês me provaram que nem tudo está perdido neste mundo.
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